domingo, 24/12/2017 | 06:04

Das trevas Deus fez a luz: eis o Natal!



Quando crescemos e começamos a entender de forma mais ampla a realidade que nos cerca, parece cada vez mais difícil dar sentido ou vivenciar o espírito natalino. Não temos mais a magia da espera do bom velhinho, surgem as preocupações dos preparativos da ceia, correria para fazer as compras natalinas, preocupações financeiras, as discussões familiares para conseguir um consenso sobre quem fará o que na noite de Natal ou como dividir o tempo para conseguir participar das ceias das diferentes famílias. Sem levar em consideração a violência que está em toda parte, crises políticas, éticas e morais que vemos diariamente nos noticiários. Enfim, tudo parece ir na direção contrária ao momento mágico do Natal de minha infância, onde já acordava com cheiro das comidas dessa época e com uma alegria genuína sem ter aparentemente algum motivo.

Essa mudança me fez refletir se estaríamos vivendo um novo tempo onde todo esse clima especial natalino não fizesse mais sentido. Foi quando reparei na minha filha brincando extremamente feliz com uma caixa vazia de remédio. Ela me olhou e abriu o sorriso mais lindo e sincero que já vi em todos os tempos. Sem que soubesse, minha filha respondeu a minha dúvida. Sim, o Natal sempre fará sentido, sobretudo nos momentos mais turbulentos.

Mais que um clima mágico e colorido no ar, de festas e presentes, o Natal nos vem recordar que sempre é tempo de esperança, de acreditar na humanidade e em dias melhores. Natal é tempo de recordar que onde ninguém podia imaginar, no caos de uma gruta abandonada, nasce a salvação do mundo.

Que nesta noite de Natal possamos fazer como a Luísa, descobrir a verdadeira felicidade nas coisas simples da vida: num abraço, num sorriso, num beijo, num telefonema, num pedido de desculpas, num olhar ou numa mensagem de alguém.  Que Deus nos conceda a graça de sermos como os pastores que foram capazes de olhar para Jesus menino, tão simples e frágil, tão indefeso, e encherem seus corações de alegria e paz, pois tinham certeza que a luz de Deus jamais se apagaria.

Que nos gestos simples e no inesperado o Natal aconteça e renove as esperanças de você e da sua família.

Um santo e abençoado Natal para todos!

quarta-feira, 25/10/2017 | 11:00

Dia 25 de Outubro


Dia 25 de Outubro é o Dia Nacional de Combate ao Preconceito à Pessoa com Nanismo. É um dia para pararmos e refletirmos sobre respeito ao ser humano. É um dia para darmos mais um passo na direção daquilo que nos une, que nos torna iguais e não ressaltar as nossas diferenças.
Acredite, somos muito mais iguais do que você imagina. Amamos. Sonhamos. Sentimos raiva, desejos e paixões. Somos capazes de realizar tudo o que qualquer pessoa pode realizar, basta nos dar meios acessíveis para isso. Podemos ser excelentes profissionais: médicos, engenheiros, analistas de sistemas, atores, modelos, esportistas, podemos ser o que quisermos ser.
É o dia de todas as pessoas com nanismo se aceitaram mais e darem valor ao que realmente é relevante. Como diz a Juliana Yamin, umas das idealizadoras da campanha “Somos Todos Gigantes”: “Precisamos aprender a diferenciar os olhares que nos veem. Nem todos são de preconceito. Existem olhares de carinho, de curiosidade, de admiração, de querer ajudar, de solidariedade e de compaixão”.
É dia de nós que temos nanismo entendermos que nem tudo é preconceito. Que nem todo “toco” que você leva de alguém que está apaixonado é porque você tem nanismo; pode não ter rolado afinidade ou interesse. Que nem toda tentativa frustrada de conseguir emprego é porque você tem nanismo; você pode ser menos qualificado. Que nem todas as dificuldades da sua vida são exclusivamente pelo fato de você ter nanismo.
Sim, reconheço que infelizmente o preconceito ainda existe de forma escancarada ou velada. Ele está na cidade não planejada para nossa acessibilidade. Ele está nos risinhos discretos que algumas pessoas dão na rua ao verem uma pessoa com nanismo. Ele está em vídeos e imagens com piadinhas jocosas que circulam nas redes sociais envolvendo anões. Mas tenha certeza de que nada disso é capaz de impedir que qualquer pessoa com nanismo alcance seus objetivos, mesmo que às vezes precise de um pouco mais de esforço.
É o dia de você, que não tem familiaridade com nanismo, ter conhecimento que existem mais de 200 tipos diferentes de nanismo. A maioria, quando tem conhecimento, tem apenas dos mais comuns, incluindo a área médica. É o dia da sociedade ter ciência que muitas dessas displasias trazem consigo limitações que vão muito além da baixa estatura: desde dores ósseas (sobretudo na coluna) até complicações sérias que podem levar ao óbito prematuramente. Já pensou que no momento que você esteja encontrando com uma pessoa anã na rua, seja uma das poucas oportunidades na vida dela de estar se divertindo longe de dores ou tratamentos médicos?
É o dia de saber que nós anões não estamos de frescurinhas e nem querendo aumentar o coro da patrulha do politicamente correto. É ter a consciência de que cada pessoa com nanismo encara suas limitações e suas lutas de forma diferente, assim como qualquer pessoa. Se você não tem intimidade suficiente e não conhece a pessoa o bastante para saber até onde pode ou não brincar com ela, não o faça. Isso é falta de educação e respeito.
É o dia de termos a esperança de que, num futuro breve, não precisaremos mais fazer papéis apenas destinados a anões e nem sermos categorizados como: o ator Leonardo, que tem nanismo; pois isso não será mais relevante.
terça-feira, 11/04/2017 | 06:09

Por trás dos super-heróis

Volta e meia me pego pensando como será o futuro com minha filha Luísa. Como será o seu comportamento, seu temperamento. Quais serão suas brincadeiras favoritas, suas histórias prediletas? O que lhe fará feliz? Brincaremos de tantas coisas: casinha, pique-esconde, amarelinha, bola, boneca, cavalinho... Lerei muitas historinhas para ela dormir, ou inventarei uma boa história de aventuras com direito a príncipes e princesas. Imitarei vozes de personagens e quem sabe brincaremos de peças improvisadas. Essa relação saudável que teremos será sempre pautada no respeito, na sinceridade e no amor, gerando frutos de confiança e cumplicidade. Como para toda criança, os seus responsáveis passam a ser seus exemplos e espelhos. Como é gostoso você sentir no olhar de seus filhos o orgulho de você ser seu pai. Em sua imaginação fértil, somos todos super-heróis que estarão sempre ao seu lado para protegê-los. Somos pessoas possuidoras de um conhecimento imenso de tudo. Somos fortes e jamais erramos. Na contramão desse pensamento, vem um turbilhão de outros pensamentos e incertezas a respeito desse “grande herói” que posso ser. Muito em breve minha filha será bem maior que eu, o que me impedirá de fazer diversas brincadeiras e atividades que pais costumam fazer com seus filhos. Carregar no colo. Brincar de jogar para o alto e depois agarrá-la. Levá-la na cacunda. Levá-la na garupa da bicicleta. Segurá-la na piscina se esta não for rasa. Levá-la mais pro fundo no mar quando formos à praia. Ajudá-la a pegar coisas no alto. Que tipo de referência de super-herói serei? Homem-formiga? Professor Xavier? Como representar no imaginário da minha filha pessoas capazes de fazer tudo se desde cedo ela saberá que seu super-herói tem muitas limitações? Será ruim? Não! Toda essa limitação é na verdade uma grande bênção de Deus. Sim, uma grande bênção! Desde de bem novinha, minha filha saberá que todos nós temos nossas limitações, nossas dificuldades, até mesmo os “super-heróis”. Isso não é motivo de vergonha ou de se sentir inferior a ninguém. Sem grandes esforços, a Luísa irá entender coisas que muitos levam anos para aprender ou nunca aprenderão. Nossos “super-heróis”, ou melhor, nossos pais, ou as pessoas que cuidam da gente, também são frágeis. Também precisam de carinho, erram, possuem diversas limitações e precisam da nossa ajuda. Minha filha saberá que nem sempre seu pai poderá lhe ajudar em todas as situações, ao contrário, muitas vezes sou eu quem precisarei da sua ajuda. Saberá que em muitas das suas aventuras de criança eu não poderei estar junto amparando contra as possíveis quedas, mas lhe explicarei todos os cuidados que ela deverá ter e, caso ela caia, estarei sempre perto para lhe socorrer. Saberá que pedir ajuda às pessoas não é sinal de vergonha ou fraqueza, faz parte da natureza humana, afinal somos imagem de um Deus Trino que em si só é uma comunidade de amor e ajuda mútua. Saberá também que suas habilidades e virtudes não a qualificarão para se sentir melhor ou superior a alguém, apenas diferente. Saberá olhar para as pessoas para além de suas aparências, entendendo que o mais importante é o que elas trazem em seu interior. Provavelmente conseguirá enxergar primeiro com mais facilidade as qualidades de alguém do que suas limitações. Por fim, saberá ser grata a Deus por poder ter a oportunidade de aprender de forma bem concreta tantas coisas que muitas vezes só conseguimos compreender com muito suor e sofrimento. Obrigado Deus por eu ser desde sempre para minha filha esse super-herói frágil.