segunda-feira, 10/09/2018 | 02:43

Fake World

O recente caso que aconteceu comigo relacionado às eleições presidenciais, levou-me a uma reflexão sobre o momento em que estamos vivendo. O caso trata-se de um grupo de pessoas que entrou com uma petição no TSE para uma candidatura apartidária e incluiu o meu nome como vice-presidente, mesmo depois de ter conversado com minha empresária na véspera e ela ter recusado veementemente. O que foi mais curioso: não bastasse a inclusão do meu nome à revelia - supostamente por uma falha de comunicação entre a pessoa que falou com minha empresária e a pessoa que deu entrada na petição -, a confusão se estendeu como uma publicação no jornal Extra, publicação esta que ficou por algum tempo como a segunda matéria mais lida do site. A notícia virou ainda motivo de piada e chacota no meio artístico e no meu trabalho.

Essa história é tão absurda que até agora não acredito que tenha acontecido comigo. Mais que uma “brincadeira de mau gosto”, algo que seria impensável em outros tempos, ela traz em si diversos sinais, a meu ver alarmantes, que estão passando desapercebidos por muita gente.

Estamos vivendo na “era das mentiras” ou “fake era”. Um tempo onde “Fake News” influenciam eleições, viram notícias em telejornais ou até mesmo grandes correntes pelas redes sociais. Uma era onde o maior desafio é descobrir a verdade. Foi-se o tempo da credibilidade e da valorização da palavra.

O advento da “democratização” ou da “globalização” da informação trouxe diversos benefícios, dentre eles, mais voz e visibilidade a diversas pessoas que jamais teriam esse espaço. Em contrapartida, a divulgação de fatos, acontecimentos e pensamentos começaram a fugir, de uma certa forma, de alguns controles. Nesse caminho, as redes sociais viraram uma terra de ninguém, onde o que é verdadeiro ou falso ganham a mesma roupagem, ficando muitas vezes impossível diferenciar um do outro.

Essa transformação do caos da verdade não aconteceu de forma aleatória e impensada, pois uma vez que os grandes veículos mundiais de comunicação já não são mais detentores da ortodoxia da verdade, ao contrário, muitas vezes são desmentidos pelas redes, nada mais oportuno que transformar tudo num universo caótico, um mar de superficialidade e mentiras. Não é à toa que nas religiões o diabo é chamado de o pai da mentira.

Vivemos na era virtual que reflete em todas as esferas da vida humana. Virtualização das brincadeiras. Virtualização dos relacionamentos. Virtualização das sensações.

Não quero parecer aquela pessoa antiquada que não é capaz de aceitar as mudanças do tempo, mas acredito que essa “revolução virtual” traz suas consequências. A virtualização conduz invariavelmente à superficialidade. Por exemplo, por mais real que seja a simulação de frio num filme 5D, ela jamais conseguirá ser tão intensa quanto se você estivesse ao vivo na cena que está sendo simulada. “Chegar em alguém” ao vivo é completamente diferente do que usar aplicativos de namoro. Ou seja, indiretamente, passamos a nos acostumar com a superficialidade das coisas. Perdemos a profundidade e intensidade.

E assim nos encontramos hoje: num mundo de faz de conta das redes sociais, onde todos são felizes, comem comidas maravilhosas e não tem problemas na vida. Um mundo de correntes falsas, de notícias falsas, de cenários falsos e de vidas falsas. Um mundo onde vale tudo para atingir os objetivos, onde até brincar ou ridicularizar um dos processos mais importantes de uma nação, que são as eleições, é permitido. Isso sem entrar no mérito da discussão de manipulações de provas, julgamentos manipulados com dois pesos e duas medidas e por aí vai.

Sim, o caos da mentira ou “fake world” é extremamente favorável para quem sabe usá-lo ou tem mais instrumentalização para isso. É muito simples de entender. Quando vivemos num mar de mentiras, quem tem mais capacidade de manipular os meios e de afirmar que uma corrente mentirosa é verdadeira, tem mais chances de tornar aquilo verdade, ou pode até mesmo usar de uma mentira criada para lhe servir como massa de manobra.

Porém, muito mais que tentar reverter uma situação já estabelecida ou se tornar um eremita, devemos ter consciência do contexto em que estamos inseridos para saber lidar com ele. Não devemos lutar contra a tecnologia, e sim contra a superficialidade das coisas. Antes de compartilhar alguma corrente ou notícia, tente de todas as maneiras averiguar sua veracidade. Se não conseguir ter esta certeza, não o faça. Use a tecnologia para marcar encontros e começar uma aproximação, mas só “se apaixone” depois de conversar e conviver muito com a pessoa, só depois de conhecer minimamente um pouco de sua alma. Brinque nos simuladores de montanhas-russas, mas nunca deixe de andar numa de verdade. Visite virtualmente lugares lindos ou museus, mas nunca deixe de ir até lá pessoalmente se tiver oportunidade. Não se iluda com notícias de facebook, de internet e nem com propagandas eleitorais. Não escolha seu candidato no achismo sem procurar ir um pouco mais fundo no que ele realmente representa. Não se deixe levar pelo “fake world”, pois as consequências são reais e na sua maioria não é coisa boa.
domingo, 24/12/2017 | 06:04

Das trevas Deus fez a luz: eis o Natal!



Quando crescemos e começamos a entender de forma mais ampla a realidade que nos cerca, parece cada vez mais difícil dar sentido ou vivenciar o espírito natalino. Não temos mais a magia da espera do bom velhinho, surgem as preocupações dos preparativos da ceia, correria para fazer as compras natalinas, preocupações financeiras, as discussões familiares para conseguir um consenso sobre quem fará o que na noite de Natal ou como dividir o tempo para conseguir participar das ceias das diferentes famílias. Sem levar em consideração a violência que está em toda parte, crises políticas, éticas e morais que vemos diariamente nos noticiários. Enfim, tudo parece ir na direção contrária ao momento mágico do Natal de minha infância, onde já acordava com cheiro das comidas dessa época e com uma alegria genuína sem ter aparentemente algum motivo.

Essa mudança me fez refletir se estaríamos vivendo um novo tempo onde todo esse clima especial natalino não fizesse mais sentido. Foi quando reparei na minha filha brincando extremamente feliz com uma caixa vazia de remédio. Ela me olhou e abriu o sorriso mais lindo e sincero que já vi em todos os tempos. Sem que soubesse, minha filha respondeu a minha dúvida. Sim, o Natal sempre fará sentido, sobretudo nos momentos mais turbulentos.

Mais que um clima mágico e colorido no ar, de festas e presentes, o Natal nos vem recordar que sempre é tempo de esperança, de acreditar na humanidade e em dias melhores. Natal é tempo de recordar que onde ninguém podia imaginar, no caos de uma gruta abandonada, nasce a salvação do mundo.

Que nesta noite de Natal possamos fazer como a Luísa, descobrir a verdadeira felicidade nas coisas simples da vida: num abraço, num sorriso, num beijo, num telefonema, num pedido de desculpas, num olhar ou numa mensagem de alguém.  Que Deus nos conceda a graça de sermos como os pastores que foram capazes de olhar para Jesus menino, tão simples e frágil, tão indefeso, e encherem seus corações de alegria e paz, pois tinham certeza que a luz de Deus jamais se apagaria.

Que nos gestos simples e no inesperado o Natal aconteça e renove as esperanças de você e da sua família.

Um santo e abençoado Natal para todos!

quarta-feira, 25/10/2017 | 11:00

Dia 25 de Outubro


Dia 25 de Outubro é o Dia Nacional de Combate ao Preconceito à Pessoa com Nanismo. É um dia para pararmos e refletirmos sobre respeito ao ser humano. É um dia para darmos mais um passo na direção daquilo que nos une, que nos torna iguais e não ressaltar as nossas diferenças.
Acredite, somos muito mais iguais do que você imagina. Amamos. Sonhamos. Sentimos raiva, desejos e paixões. Somos capazes de realizar tudo o que qualquer pessoa pode realizar, basta nos dar meios acessíveis para isso. Podemos ser excelentes profissionais: médicos, engenheiros, analistas de sistemas, atores, modelos, esportistas, podemos ser o que quisermos ser.
É o dia de todas as pessoas com nanismo se aceitaram mais e darem valor ao que realmente é relevante. Como diz a Juliana Yamin, umas das idealizadoras da campanha “Somos Todos Gigantes”: “Precisamos aprender a diferenciar os olhares que nos veem. Nem todos são de preconceito. Existem olhares de carinho, de curiosidade, de admiração, de querer ajudar, de solidariedade e de compaixão”.
É dia de nós que temos nanismo entendermos que nem tudo é preconceito. Que nem todo “toco” que você leva de alguém que está apaixonado é porque você tem nanismo; pode não ter rolado afinidade ou interesse. Que nem toda tentativa frustrada de conseguir emprego é porque você tem nanismo; você pode ser menos qualificado. Que nem todas as dificuldades da sua vida são exclusivamente pelo fato de você ter nanismo.
Sim, reconheço que infelizmente o preconceito ainda existe de forma escancarada ou velada. Ele está na cidade não planejada para nossa acessibilidade. Ele está nos risinhos discretos que algumas pessoas dão na rua ao verem uma pessoa com nanismo. Ele está em vídeos e imagens com piadinhas jocosas que circulam nas redes sociais envolvendo anões. Mas tenha certeza de que nada disso é capaz de impedir que qualquer pessoa com nanismo alcance seus objetivos, mesmo que às vezes precise de um pouco mais de esforço.
É o dia de você, que não tem familiaridade com nanismo, ter conhecimento que existem mais de 200 tipos diferentes de nanismo. A maioria, quando tem conhecimento, tem apenas dos mais comuns, incluindo a área médica. É o dia da sociedade ter ciência que muitas dessas displasias trazem consigo limitações que vão muito além da baixa estatura: desde dores ósseas (sobretudo na coluna) até complicações sérias que podem levar ao óbito prematuramente. Já pensou que no momento que você esteja encontrando com uma pessoa anã na rua, seja uma das poucas oportunidades na vida dela de estar se divertindo longe de dores ou tratamentos médicos?
É o dia de saber que nós anões não estamos de frescurinhas e nem querendo aumentar o coro da patrulha do politicamente correto. É ter a consciência de que cada pessoa com nanismo encara suas limitações e suas lutas de forma diferente, assim como qualquer pessoa. Se você não tem intimidade suficiente e não conhece a pessoa o bastante para saber até onde pode ou não brincar com ela, não o faça. Isso é falta de educação e respeito.
É o dia de termos a esperança de que, num futuro breve, não precisaremos mais fazer papéis apenas destinados a anões e nem sermos categorizados como: o ator Leonardo, que tem nanismo; pois isso não será mais relevante.